O ABSURDO QUE ME ENCANTA

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A minha história clássica infantil preferida é aquela mais maluca e ilógica dentre as histórias clássicas. Não há uma princesa linda, jovem à espera do príncipe mais belo, corajoso e próspero… Há uma menina exausta fisicamente e mentalmente de um mundo tão urgente que acredita que os sonhos são… muito mais doces e recompensadores diante de tanta mesmice e mediocridade.

O coelho apressado com um relógio de bolso, que sempre parece querer lhe dizer algo ou lhe mostrar um caminho; as diversas situações que jamais ocorreriam em um mundo real: encolher; ficar gigante e inundar o espaço com as próprias lágrimas; ser aconselhada por uma lagarta; participar de um chá de loucos e ser bombardeada por enigmas até o cansaço mental; estar em um reino habitado por baralhos com vida; encontrar uma tartaruga falsa pelo caminho; um gato que orienta quais trilhas podem ser seguidas, mas que em meio à escuridão some deixando apenas seu sorriso; encontrar a Rainha de Copas; participar de um julgamento sobre roubo de tortas; não ser suportada em um reino por não se adequar ao comportamento dos demais.

Eu vivo em um planeta cada dia mais fútil e deprimente. Eu convivo com seres… humanos… é o que dizem, que desejam ‘coisas’ a todo momento e não se importam em ser verdadeiros uns com os outros, não se importam em ser… gente. Eu vivo em um reino movido por ambição, repleto de olhos vorazes e de disputas infindáveis… por nada.

Com minhas sapatilhas retangulares estou tentando alcançar a chave dourada, por que o jardim que me encanta me chama a todo instante e quero ir. O coelho apressado me surpreende a todo momento e quando me deparo com meu reflexo, o seu relógio de bolso me lembra, me lembra que o tempo voa e que não há tempo para mais questionamentos… Como não questionar?

Eu não paro, avanço pelos telhados, converso com os gatos, que somem na noite sem deixar vestígio. Encontro seres falsos que me orientam caminhos contrários e que me fazem beber suas palavras que têm o poder de encolher. Mas sempre há uma saída, um bolo de esperança que aumenta a estatura.

Se houver tristeza e choro, mesmo que não haja percepção, as lágrimas terão inundado o caminho e nem os que estão à volta poderão ajudar. Mas por entre as lágrimas sempre há uma trilha, ainda que mergulhando seja difícil encontrar a salvação.

Então nesse mundo “real e verdadeiro” eu sigo as infindáveis trilhas me norteando pelo absurdo. O absurdo do coelho apressado que tem um relógio de bolso; o absurdo de beber palavras que encolhem e de comer bolos de esperança que agigantam; o absurdo de encontrar gatos abstratos que orientam caminhos; as lagartas falsas; as cartas de baralho com vida; o absurdo de participar de um julgamento em que o réu roubou tortas; o absurdo de não ser suportada só por não concordar.

O mundo tentará a todo instante lhe fazer beber seus cálices que encolhem, você será julgado incapaz de conviver em um reino “real” se não concordar com os demais… ordenarão: “Cortem-lhe a cabeça!” Mas o mais sublime é se deparar com a ausência de medo e com a certeza de que são só cartas de baralho pretensiosas, ora bolas!

Sim, eu vou acordar, mas ninguém me impedirá de correr atrás a qualquer momento do ser orelhudo com um relógio de bolso. Para onde devo ir?

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