CASA DE COCÔ DE FORMIGA

 

casa de coco

A pergunta que frequentemente me faço quando essas ideias e palavras querem me sequestrar é: o que vão pensar? O que vão dizer dessas viagens sem vislumbre de regresso? Minha memória é como se diz: de elefante! E nem sempre saio caçando lembranças para relembrá-las, mas estão dentro da mente… sempre.

Certa vez fui me encontrar com uma amiga e após conversas, chá de melissa e risadas, me deparo com uma figura curiosa… Júlia. Não sei se é assim que se escreve, mas ela se impunha de maneira peculiar para os seus apenas quatro anos de idade. Uma linda garotinha de cabelos louros ondulados um pouco abaixo dos ombros… quase cacheados, de bochechas rosadas e fofa… escandalosamente fofa, daquelas pequeninas criaturas que dá vontade de apertar até que sintam dor, mesmo que não seja a intenção, de tão fofas. Mãozinhas pequenas e preciso salientar, mãos fofas e sujas de brincar, cheias de dobrinhas. Júlia tinha uma boneca de pano, um saquinho de cereais (Sucrilhos) e seus desenhos. Quase não falava, apenas observava e sorria, sorriso daqueles de quem fez traquinagem e não contará jamais a ninguém, a menos que algumas balas de goma sejam pagas.

Unhas pintadas e atenção sobre as minhas unhas – Mas as suas unhas estão mais lindas Júlia! – sorriso de dobrinhas.

Júlia sentou-se ao meu lado e para a minha surpresa começou a conversar, timidamente, mas falava, primeiro perguntei sobre a boneca, era a sua amiga, e a memória de elefante, talvez não seja mais de elefante, porque não me lembro o nome da boneca (risos), era a companheira de Júlia, dormia com ela, brincava com ela e era com essa boneca de pano suja, que a mãe me confessou que precisava pegar escondido para lavar, que Júlia passava a maior parte de seu tempo. De repente sentiu fome e não teve problemas em enfiar suas mãozinhas sujas no seu saquinho de cereais. Em sua pequena lancheira, os desenhos em uma capa de plástico… E uma casinha… a mamãe, o papai e a casinha… como qualquer casinha desenhada por uma criança, mas quando perguntada sobre a casinha, Júlia surpreende: “É uma casa de cocô de formiga!”. A mãe ri, todos nós na verdade rimos e Júlia instintivamente riu.

Casa de cocô de formiga, mas que improvável! Que material inusitado para se construir uma casa sobre o papel, uma casa feita por cocô de um inseto pequenino. Para construir a engenharia da mente da Júlia no papel era necessário muito cocô de formiga, mas muito mesmo! E ali estava a mais engenhosa casa de cocô de formiga que eu já vi…

Será que algum dia a Júlia vai se lembrar da casa inusitada que criou? Será que algum dia quando os problemas surgirem na vida de Júlia ela se lembrará da tamanha criatividade que a fez criar uma casa feita de cocô de formiga? Será que se a pequena Júlia já crescida estiver desmotivada por qualquer motivo que seja, se lembrará de um desenho tão criativo e inusitado? Será que se a pequena Júlia cometer algum erro pela efervescência da juventude, sua mãe se lembrará da engenhosa casa desenhada sobre o papel? Será que as formigas já pensaram em criar uma casa com o próprio cocô? Seria possível uma família feliz habitando dentro de uma casa de cocô de formiga?

Quanta idiotice da pobre plutônica!

Eu quero reencontrar meus desenhos perdidos no tempo, quero reencontrar a minha crença sem titubear nos sonhos de algodão-doce, quero amar o amor mais puro e sorrir o riso mais cheio de dobrinhas pela simplicidade do que é existir.

Quero chorar sem me preocupar se vão rir ou me chamar de tola, quero andar descalça na terra e comer goiabas cheias de bichos com as mãos sujas. Quero sentar num balanço, quero papel, giz de cera, quero criatividade sem fim, quero eternidade como limite.

Linda garotinha das mãos repletas de dobrinhas, se para você algum dia aquela casa for só uma casa, eu desejo que se lembre: era uma casa de cocô de formiga!

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