EU SOU A PALAVRA

Esse é um dos raros momentos em que a palavra me ordena. Raro momento em que a escrita é a escrita, não é a minha escrita, não poderá sequer ser assinada com meu nome, essa é a escrita que já existia e quer ser encarnada.

Ela apenas me ordena com voz grave e estridente: Escreva! O que escrever? Estou tentando procurar quais palavras posso usar, mas elas não desejam ser encontradas, são elas que querem me encontrar… me possuir.

Não cabe terceira pessoa, não cabem meus conhecimentos, cultura, vivência, dor, alegria, estado de paixão, eu não caibo.

Eu sou a palavra, não… eu não… a palavra diz: Eu sou a palavra. A partir de agora ela falará por si, não poderei assinar o texto, chamá-lo de meu, posso apenas me sentir lisonjeada por ter sido por um momento no Universo a incorporação da excelente palavra.

Eu sou a palavra, milenar, presente, futura, sempre palavra. Tenho alma, vida, poder, e posso ser compreendida em qualquer parte do mundo, posso ser escrita em qualquer idioma e possuir até o mais vil escritor. Tenho algemas, abro janelas, sou sã e ao mesmo tempo insana. Habito em livros, jornais, bulas de remédio, cartas de amor, pedidos de prisão, de absolvição… Existo em toda forma que há e posso ser desprezada, mas deixar de existir, jamais.

Sou obstinada, ardente, sou alucinada e sedenta. Preciso ser escrita, preciso ser encarnada, preciso ser lida, ouvida, lembrada. Sou decorada e entoada por atores; posso ser declamada em versos que já existiam porque foram vivificados por meio de escritores.

Que assinem o que sou, ainda assim, não pertenço a ninguém. Se eu estiver errada, quem julgará meu mentor? E se eu quis estar errada? Se as pontuações que me acompanham não estiverem onde desejaram e o sentido não for o pretendido. E se eu quis que estivessem desordenadas para que o sentido fosse o que propus e não o vosso?

Não preciso de muitas letras para ser bela e reverenciada, preciso de fiéis mentores, preciso dos mais pequenos, incapazes, dos mais iletrados, para ser o que sou.

A palavra sou eu, eu sou o que sou, o escritor apenas escreve, o poeta apenas escreve, o ator proclama o que já estava escrito, enfim, a palavra sou eu. É possível que se rendam à minha soberania? É possível que me deixem encantar a vida que há? Acreditem, sem minha existência existir seria um fardo e sabe o que penso que sou? Sim, por que a palavra pensa, eu sou apenas a palavra, assim como o mentor… é apenas o mentor, por isso, me deixem ser da maneira natural como sou. Me deixem brilhar, não sejam vis, soberbos, pretensos a me adornar, me deixem ser quem sou, isso os ajudará a refletir quem são.

A Palavra

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