A garota sem vergonha

tristeza

Há alguns dias vi uma cena instigante ao voltar para casa, uma garota de vívidos olhos claros (no escuro não consegui discernir se eram verdes ou azuis), chorando efusivamente. Não eram lágrimas remanescentes de um choro recente, ela caminhava e chorava, aquele choro que faz a boca se abrir em riso e que contrai a parte inferior da barriga.

A menina chorava sem se preocupar com os carros que passavam ou com as pessoas que olhavam, tenho a certeza absoluta de que ela não via ninguém naquele momento. Claro que minha curiosidade desenfreada criou inúmeras justificativas para aquele choro efusivo, desde a morte de alguém próximo e querido até o “clichê” rompimento de um relacionamento ou uma briga por um motivo que pode a longo prazo representar o fim de um relacionamento (risos), sim, eu viajo na maionese. Mas o que realmente me chamou à atenção foi a falta de vergonha daquela moça. Em um mundo que nos diz que temos que ser felizes e que temos que ter “modos” para viver em sociedade, alguém como aquela moça ousa ser triste, ousa chorar em público em um local improvável em um momento de dor, a garota não tinha vergonha alguma de mostrar a tristeza, nenhuma preocupação em enxugar as lágrimas, em conter a expressão, nenhuma dificuldade em soluçar em público enquanto caminhava.

Sem vergonha, porque ser triste, sentir dor e expressar um momento infeliz não é motivo para se esconder, não é vergonhoso como se pensa. É estranho o “estranhamento” das pessoas diante da dor de outros, o olhar é de susto, é de: o que está acontecendo? E não é uma simples curiosidade, é a expressão de não saber lidar com a dor, de não conseguir compreender quando a dor se expressa.

Em algum momento engolimos o choro para que não parecêssemos demasiadamente piegas, eu já ouvi da minha mãe quando criança: “Engole o choro!”

Por que chorar na presença de outras pessoas de certa forma “agride” a luta constante de muitos para ser feliz, como se sofrer não fosse um processo evolutivo que pode levar o ser humano a encontrar um pequeno recanto de paz e de sincera felicidade.

Aquela garota me despertou para a coragem em demonstrar a tristeza que há que se houver, me despertou para ter coragem em soluçar se a dor for insuportável. Piegas, muito piegas, eu sei…

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