ELA NÃO TINHA OLHOS

sem olhos

Ela não tinha imagens, lembrava a partir de sons, a partir de passos, lembrava com o som das palavras, sentia os gestos, fragrâncias e reconstruía formas de lembranças que nem sabia se existiam. Não sei o nome dela, na verdade, nunca a vi. Como sei que ela existe? Segredo. Eu sei. Ela nasceu sem os olhos, e não era um espaço fechado por pele, envolto por cicatriz, era uma cavidade vazada, oca, negra, assustadora talvez.

Ela não cobria a região dos olhos, nunca usou óculos escuros ou qualquer proteção, nem se privava de sair às ruas, de buscar por novos cheiros, novos sons, novas palavras. Ninguém podia encarar sua face, ninguém podia olhar muito tempo para ela, a reação era imediata: Ai! E os rostos bruscamente se viravam. Ela? Nunca reagiu e nunca se sentiu mal em ouvir sempre tais expressões enquanto caminhava.

Ela se lembrava dos pais, do carinho, atenção, das histórias e foi a perda dessas pessoas que tanto amava que fez com que ela sentisse dor, e foram essas pessoas que a ensinaram sobre muitas coisas, a ensinaram que pessoas choram e, esse foi o maior mistério que já lhe foi dito. Ela não podia derramar lágrimas, a única coisa que podia colocar para fora de suas cavidades ocas era escuridão. Ela também não conhecia o amor  de um homem, ninguém nunca se aproximou dela, ela conhecia algumas histórias românticas, achava até mesmo interessante, mas não tão interessante quanto o “mistério” de derramar água pelos olhos:

— Isso sim é um milagre e é belo!

Todos os dias ela pensava incessantemente em como seria chorar, e não havia imagens, não havia maneiras para imaginar o que seria derramar lágrimas, o que seria escoar água pelos olhos. Aqueles pensamentos atordoantes, aquele mistério e, na pia do banheiro ela jogava água nas cavidades escuras e a água caía de uma única vez, sem dor, sem tristeza. A única dor foi quando perdeu seus pais, mas que dor poderia haver agora? Que dor? O que a entristeceria? Nem os murmúrios enquanto andava pelas ruas produziam nela qualquer desconforto. Ela sabia que pessoas poderiam chorar de felicidade, mas era a dor que produzia as melhores lágrimas.

Um dia, pela primeira e única vez, ela colocou óculos escuros e saiu, foi a um velório, e lá ouvia soluços, lamentos e sim… sabia que muitas lágrimas estavam sendo derramadas. Guiada pelo som mais vivo de agonia e dor, se aproximou de uma mulher que chorava, colocou as mãos sobre seu ombro e a confortou dizendo: Sofra!  — Ora! Ela acreditava que sofrer era um conforto e não satisfeita em apenas dizer, colocou as mãos nos olhos daquela mulher, molhou os dedos nas lágrimas e levou-os à boca, a cena foi estranha aos olhos de quem estava ali, ela logo se retirou.

Chegou em casa, e sim, estava profundamente triste, não podia expressar sua dor como a maioria das pessoas fazia, não podia chorar, fosse de dor ou de gozo.

Um dia, um cheiro fétido foi sentido na rua em que morava, dois dias se passaram e o cheiro estava mais intenso. Aquela mulher foi encontrada morta em seu sofá, com os olhos rasgados por uma faca de cozinha, havia um sorriso sereno em seus lábios.

Aquela mulher estava feliz porque dela saía sangue vivo, porque daquela cavidade oca poderia escoar a expressão de sua dor. Ela chorou de alegria e dor ao mesmo tempo, a loucura e desejo por chorar a fez cutucar as cavidades ocas até que sua razão fosse extinta. Ela não tinha olhos, mas chorou como ninguém jamais poderá chorar.

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