SOBRE ERRAR O PORTUGUÊS E SOBRE ERRAR EM SER HUMANO

 

erros

 

Incêndio no Museu da Língua Portuguesa e nas redes sociais não faltaram trocadilhos que tinham tudo para ser engraçado como “Tantas pessoas falando e escrevendo errado por aí que achei que o Museu já tinha pegado fogo antes”. Mas não foi só isso, eram muitas trocas de correções, eram muitas pontuações quanto aos erros da língua.

Estava indo dormir, mas me bateu esse desejo em escrever.

Para ser bem sincera eu já fui sim daquelas que dizia “Meu Deus, olha esse erro”, mas isso foi se transformando à medida que eu percebia os meus erros.  Já errei tantas vírgulas, já errei tanto na grafia de tantas palavras, não sei se acontece com você, mas às vezes me esqueço de como determinada palavra se escreve.

O que realmente me importa é entender o que o outro me escreve, o que ele me diz e me importa ainda mais saber por meio daquilo que ele não diz.

O português é uma das línguas mais complexas do mundo. Houve mudança recente na ortografia, menos de dez anos (recente sim). E quantas vezes eu já não errei? Quantas vezes não escrevi antiinflamatório ao invés de anti-inflamatório (escrevendo sobre saúde), ou me esqueci que microondas agora se escreve com hífen, por exemplo, fora os outros milhões de esquecimentos e erros.

Já li textos em que falavam sobre a tristeza e desilusão de quem conhece alguém legal, mas de repente esse alguém escreve algo incorreto e pronto, perde-se o encanto.

As pessoas encaram um erro oral de português ou uma grafia incorreta como algo digno de inquisição sem sequer olhar para os próprios erros, sem sequer compreender também além da escrita. Não sei se sabe, mas precisa mergulhar além da escrita para entender qualquer livro de romance, por exemplo. A comunicação está além, muito além das palavras.

Você erra, erra vírgula, erra acento, erra a exclamação, erra depois dos dois pontos e erra quando decide colocar ponto vírgula.

Já conversei com pessoas que diziam determinada palavra errada e aquilo me soava sim natural, era importante o que elas me diziam, sobre o que me diziam.

Os erros sejam de grafia ou verbais estão além do que muitas pessoas chamam de desleixo, de falta de vontade. Sabe, é bom sempre sair um pouco da própria bolha e ver o mundo sob outras perspectivas sempre.

Uma vez me levantei em defesa de uma escritora que tinha como intuito traduzir obras de Machado de Assis para uma linguagem mais simples ao que recebi críticas. “Onde já se viu traduzir Machado de Assis!” “Onde já se viu traduzir um clássico?”. Eu até li que estavam querendo passar o machado no Machado. E sabe o mais engraçado? É que quando Machado escrevia era pouco valorizado. Clarice Lispector que hoje está em centenas de posts no Facebook, ela, uma das escritoras mais queridas da minha vida, do livro A hora da estrela <3, ela também não era compreendida em seu tempo.

Clarice em entrevista certa vez disse que não a compreendiam e que os letrados não sabiam sobre o que ela escrevia, mas que um dia uma jovem disse que tinha o seu livro na cabeceira e que lia e relia.

Suponho que não entender não é um questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Tanto que o professor de português e literatura, que deveria ser o mais apto a me entender, não me entendia… E a moça de dezessete anos lia e relia o livro, não é? O que é um alívio…  Clarice Lispector em última entrevista antes da morte, por Júlio Lerner

Sabe… Não são os erros de português não, não são as palavras escritas erradas, o erro está na caminhada. O erro está na autoimagem. O erro está em não ver o próprio erro. Os muitos próprios erros!

Eu não posso apenas falar por aquilo que vivo, pelo meu universo, pelas minhas experiências, eu preciso ver as pessoas e ainda que eu não as compreenda eu não posso de forma alguma ignorar que têm uma história.

Tem muita gente que não pôde realmente estudar, que não pôde realmente aprender. Me lembro aqui de um dia no trem em que um pai dava bronca em seu filho e lhe dizia com muitos erros de português: “Você precisa parar com esse videogame, precisa estudar, eu sinto falta, eu tive que parar na sua idade”. E naquela hora o olho do homem se encheu de água e o menino o olhava com um carinho tão grande e eu via que por aquele pai esforçado ele iria se dedicar.

Que pretensão é essa de querer corrigir a todo tempo os erros dos outros, quando erramos, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre?

Quantas vírgulas salpicamos pela vida contra a nossa vontade? Quantas lacunas a vida não nos impôs! Sim, nos impôs.

Se eu entendo, me comuniquei comigo. Se o outro me entendeu, houve comunicação. Há maneiras de corrigir e quando há abertura e desejo de tal correção. Mas de verdade, que haja sim traduções e mais traduções de clássicos da literatura nacional e estrangeira.

Shakespeare, hoje tão reverenciado, não era bem quisto em seu tempo. Nelson Rodrigues era um TARADO e as peças eram consideradas imorais, sexuais, pervertidas e, quer saber? Era pervertido porque era real.

Antes dessa preocupação se o português foi escrito corretamente ou se a pronúncia está correta, antes de tudo isso, que haja mais preocupação interior, que a língua da humanidade seja a língua mais aprendida e mais ensinada. Que os ouvidos não sejam surdos para entender as almas e que a língua tão apta a chicotear os erros possa ser um instrumento de carinho. Olhemos além de nós. Ouçamos além das vozes que nos são familiares. Falemos sobre o que conhecemos e o “chicote” não foi feito para aquilo que não se conhece. Humanos, errados, imperfeitos e o mais triste… cegos!

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