Cecília em nós

 

espelhos

— Você pode me trazer à vida?  — diz ela.

Absorta em meus problemas, em meu mundo e tão ligada em minhas urgências me sinto uma assassina, alguém que poderia fazer uma alma que clama encarnada, mas que tapa os ouvidos.

É uma voz de mulher, grave, um tanto rouca e sem resquício de amargura, parece curiosa, parece ansiosa, parece tão próxima!

Estou ouvindo seu clamor desde quando existo, desde a infância, mas não soava adulto como agora, é um clamor vívido, finalmente existente.

É mais intenso enquanto penteio meus cabelos, é mais intenso quando estou despida em frente ao espelho. Ela grita, quer muito que a conheçam e quem ela acha que sou para fazê-la conhecida ou tampouco existir?

Quem é você? — eu grito. Não posso mais suportar esses murmúrios que alternam para ordens. Não posso mais suportar essa rouquidão, não posso suportar o grau que essa alma tem de atrair.

Ela me disse que sei quem ela é… Oras, não sei! Não sei! Ou sei? Será que seu nome começa com C? Será que seu nome tem mais consoantes que vogais? Será que seu nome rima com atividades pitorescas para se fazer enquanto se existe?

Cecília! Cecília é seu nome. Não consigo pensar em outro nome, em outro som, em outra harmonia de letras. Ela não me disse que sim e nem que não.

De repente estou me sentindo melancólica mais que o normal e é como se Cecília definitivamente estivesse pronta para existir. Ela existe. Ela se mostra e ela está totalmente ferida, totalmente nua e não enxerga. Ela não me teme, não teme que eu a possa amaldiçoar em voz alta: Deus! — Cecília está em sombras, mas posso vê-la em carne.

Ela chora de alívio, não consigo compreender o que diz e de repente ela me conta sobre sua história.

Cecília esteve presa desde a adolescência em um cárcere escuro, de grades enferrujadas e sob a supervisão de um carcereiro lúgubre e austero.  E qual era o seu nome? — Não sei. —  ela responde.

Sinto que sim, que ela sabe, mas não quer me dizer, não quer me contar sobre este homem, e não quer ser interrompida enquanto me diz sobre quem é.

— Preciso lhe contar sobre o meu horror. Preciso lhe dizer pela primeira vez o que me ocorreu. Nasci em 5 de agosto de 1954, era filha bastarda, muito pobre, vivia em uma pequena província em Minas Gerais, Timotéo. Cresci calada, infeliz e nunca sonhei, nunca sonhei. Olhe como estou magra, olhe as profundezas dessas feridas, veja como esse olhos são, sem brilho!  Não era cega. Um dia acordei em meio ao meu terror e não podia mais contemplar nada. Não podia mais me deparar com aquele homem de aparência cruel. Não podia mais e nem havia motivos para lamentações. Como se lamenta na dor? Não era possível lamentar mais, não era possível agonizar mais.

Talvez você, assim como eu, compreenda que Cecília é um espírito, ainda mais por ter dito quando nasceu e onde nasceu. E se eu te disser que Cecília está viva? Ela está.

Antes de completar 12 anos de idade, Cecília apesar dos desalinhamentos de sua vida, era uma garota feliz, tinha um mundo à parte da realidade difícil que vivia. Às vezes só lhe restava fechar os olhos e se deliciar com um pedaço de cana abatida pelo calor. Não tinha pai, mas também não tinha ódio e era estranho, não sentia falta. Quanto à sua mãe? Ah, por ela Cecília dedicava todo o seu amor, o pouco de fé em sua alma era rendida para que alguém em algum lugar no Universo desse para aquela mulher sorrisos, sim, Cecília só queria ver a mãe sorrindo, feliz, mas isso nunca acontecia.

celAo completar 12 anos de idade, caminhando de volta para casa depois de um dia de intenso trabalho, Cecília foi abordada por um homem rude, mas em nenhum momento imaginou que aquele homem pudesse lhe fazer algum mal. Em nenhum momento pensou que algo terrível lhe pudesse ocorrer, mas foi ali, no caminho de volta para casa que aquele homem com aparência rude, botas envelhecidas, cigarro no canto dos lábios, barba e camisa vermelha desbotada — Aquele homem! Cecília foi levada para o cárcere no qual esteve presa até o fim da vida.

Aquele homem em nenhum momento tentou violentá-la, aquele homem em nenhum momento a agrediu fisicamente, não lhe deixou sem pão, sem água, não lhe deixou sem ouvir… ela ouvia. Ele cantarolava músicas que ela jamais ouvira e não se sabe exatamente porque a menina perdeu a visão quando tinha 17 anos.

Mas o que é violência? O que é cruel? A violência tem tamanho? A violência tem um estágio? Aquele homem sequer sabia que Cecília não enxergava mais. E você, assim como eu, pode se perguntar: “Por que alguém raptaria uma menina, a deixaria num cárcere e a manteria como se mantém um pássaro em uma gaiola?”.

Por quê? — eu lhe pergunto. Não sei, não sei o que levou esse homem a privar Cecília de ser livre e essa foi a grande violência. Cecília poderia ter, como sonhava, aprendido as letras, aprendido a ler aquelas letras que via em figuras de livros que vez ou outra encontrava pelo caminho. Cecília poderia ter lutado para que outras mulheres como sua mãe não passassem mais pela vergonha e nem pelos julgamentos de uma sociedade desigual por ser uma mãe sozinha, por ter se deitado com um homem de outra família, porque ele disse que a amava. Cecília poderia ser escritora, poderia ter sido dançarina, poderia ter sido cantora, poderia ter sido uma amazona, poderia ter sido um pássaro, mas não… Foi condenada por algo que não se pode compreender, foi condenada à prisão! Sem nunca ter feito nada que justificasse tal sina. E há justificativa?

Quando olho para a sua pele, não sei ao certo se há cor, vejo-a em sombras, vejo-a me fitando, vejo-a com sede. Olho para ela como que procurando respostas, olho para ela como que procurando explicações. Ela entende que a estou inquirindo, ela entende que quero que ela me explique. Ela vê sem ver.

Cecília pega em minhas mãos, sinto a frieza me arrepiar a espinha, me sinto pequena, me sinto suave, me sinto doente. Cecília me fita (sem ver) e com voz trêmula me diz:

— Por que quer uma explicação? Por que acha absurdo o que me ocorreu? Por que acha absurda a minha sina? Por que você sente dor? — e quando ela me pergunta por que sinto dor, por um instante fecho os olhos e Cecília não está mais. Será que Cecília retornará para que eu enfim a compreenda?

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Em frente ao espelho, depois de uma semana do ocorrido e distraída com este ser desconhecido que carrego em um corpo carnal, distraída olho em meus olhos e sinto o coração acelerar num ritmo descompassado. Deus! Cecília está em mim! Talvez Cecília sempre estivesse em mim. Cecília me olha por dentro dos meus olhos. Me assusto, soluço, choro, me assusto, mas depois choro com toda a dor que senti outrora enquanto Cecília me relatava seu terror. Cecília sou eu. Cecília é você. Cecília esteve toda a vida em um cárcere, toda a vida em um lugar de horror, toda a vida sob a supervisão de um ser que não se sabia ao certo até onde poderia ser mais cruel. Cecília não teve liberdade, não teve seus direitos, não teve voz e percebo que Cecília também não tinha forma. E quanto às feridas? A alma sangrava.

Cecília está em cada mulher, em cada pedaço de carne que reluta, Cecília está enxergando pelos olhos de quem não se cansou de tentar enxergar. Cecília está livre em todos os corpos que se permitiram viver ainda que com uma alma quase relutante com a vida.

Mas por que Cecília se apresentaria? Por que Cecília diria quando nasceu e onde nasceu? Na verdade ela poderia ser de qualquer pedaço de terra no mundo. Poderia ter vivido em qualquer contexto diferente, poderia ter qualquer cor de pele e poderia falar com qualquer voz ou nenhuma voz. Poderia ver por olhos naturais ou pelos olhos da alma. Cecília luta. Cecília luta contra o desconhecimento de sua existência.

Descoberta em mim, a farei ter o que nunca teve. Cecília gozará de dias melhores e será uma das mulheres que gostaria de ter sido por meio de minha alma. Cecília em nós. Mulheres Cecílias.

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