Coisas que só o agudo de Steven Tyler consegue traduzir

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Houve um tempo em minha adolescência que eu não sabia mais a que estilo musical melancólico deveria me render. Não sabia se deveria bater cabeça ao som de Nirvana, se deveria continuar tentando rir da morbidez com Essa noite não, do Lobão ou se deveria me render aos caras melancólicos e românticos do Silverchair. Mas aí, em um dia conheci o Aerosmith, que era uma das bandas que mais investiam na produção de videoclipes e pela primeira vez vi Steven Tyler, na execução da música Full Circle. Procurei a tradução com a ajuda da internet discada, sim houve um dia em que a internet funcionava a partir de pulsos telefônicos que fazia muitas pessoas desejarem no final do mês com a chegada da conta, cortar os pulsos de fato.

E foi começando pela tradução de Full Circle e ouvindo a música pelo menos umas oitocentas vezes que cheguei às demais. As preferidas eram Hole in my Soul e Cryin. Com aquela coisa toda que eu guardava dentro do peito quando adolescente, ouvir essas músicas era como um convite à libertação. Você ouvia, chorava absurdamente e chorava absurdamente mais umas dezenas de vezes e depois, lhe restava o sono após o cansaço de tanto chorar. No dia seguinte, a sensação que ficava era a de anestesia e você passava o dia em uma paz que fora provocada por ouvir algumas músicas de rock romântico.

Mas não era apenas a música, não. Era a maneira como ela era entoada. Era o jeito com o qual Steven Tyler interpretava. Era aquela generosidade do músico em deixar rolar todo o som que poderia sair daquela boca estupenda. E ali, eu via o Steven como um cara que estava vivendo todas as merdas que eu vivia na adolescência.

Ver todo o poder vocal saindo de um ser humano em algum lugar do mundo, me fazia acreditar que existia uma banda específica para pessoas que tinham alguns desajustes sentimentais, mentais e com tendência suicida. Quando eu pensava em morte e escrevia poemas fúnebres, era importante ouvir Lobão, para tentar ver um pouco de humor em tudo que me acontecia intimamente. Já quando eu precisava realmente extravasar, era importante ouvir Aerosmith, começava por Hole in my Soul e terminava com Cryin.

Quando era adolescente, esperava realmente que alguém me ouvisse, me desse a devida atenção e conseguisse sentir um pouco do que eu sentia. Se eu sabia o que era terapia? Sim, sabia! Mas também sabia que não havia ninguém na música que pudesse traduzir o que eu sentia, melhor do que Steven Tyler. Aerosmith era aquela banda necessária para fazer valer a minha adolescência, era aquela banda que me fazia suspirar, gritar, ladrar, que fazia tudo que era uma merda ser uma merda de vez. Aquele timbre de voz era capaz de quebrar vidros e de quebrar corações de vez. Aqueles gritos, suspiros, e todos os joguinhos agudos que poderiam ser feitos para que jovens loucos morressem ou vivessem! Sabe, eu devo muito do que sou hoje, eu devo muito da minha impetuosidade, de certa forma, às músicas que eu ouvia. E devo sim, muito ao Aerosmith, ao Steven Tyler.

Quando eu queria quebrar o mundo real, era ouvindo Aerosmith que eu conseguia enfim quebrar o que estava me atormentando. Muitas lágrimas já caíram desses olhos cansados e exagerados! Muitas caraminholas já brotaram de um jeito inimaginável graças a essa mente que cria raízes maiores do que o Pé-de-Feijão do saudoso João.

Já vi algumas declarações do Steven em que ora ele confessava que sofria de depressão, em que ora se  sentia melancólico e até sem esperanças em relação ao rumo da banda, mas sabe… O Aerosmith existe exatamente para cumprir perfeitamente esse papel de analista gratuito, essa função importante de fazer toda a tristeza sair de uma vez para alguma purificação.

Há coisas que passamos a vida sem entender. E há coisas que entendemos em parte. O que não entendo em parte, deixo para o agudo do Steven Tyler traduzir… ao vento.

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3 comentários em “Coisas que só o agudo de Steven Tyler consegue traduzir

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  1. Eu entendo perfeitamente. No meu caso, conheci aerosmith de uma forma muito… “era pra acontecer”.
    Tinha um remix da musica Boulevard of broken dreams do green day, em que na parte final da musica a remixagem é feita com o refrão de dream on. E como na época eu era uma criança praticamente e 100% leigo de rock, achava que era parte da musica mesmo. Só depois que fui entender que era uma remixagem. O tempo ia passando e eu ouvia aquela musica e me perguntava: “de quem será que é essa voz no final? de quem é essa musica?”
    Até que um dia eu cliquei em uma porra de um video no youtube em que dizia: Aerosmith – Dream on.
    E “porra, não acredito! Enfim achei!” “Eita porra, que grito daora, deixa eu ver de novo” “Será que ele faz pelo menos metade ao vivo?”
    Beleza, fui procurar por ”Aerosmith dream on live” no youtube e meu, cliquei logo na perfomance do 10th aniversario na mtv (Uma das melhores performances vocais do Sr. tyler). Terminou o video eu tava todinho arrepiado. O que era aquilo? como ele conseguia cantar tão alto? com tanta força, e aquele grito?
    Depois desse video em que eu dei play e replay por 50 vezes, eu só queria saber mais sobre quem era aquele cara que cantava muito e ainda tocava piano. Ai fui descobrindo que era piano, era gaita, percussão, que ele dançava, que ele pulava, que ele interpretava, que ele tascava beijo nas fãs durante os shows e fiquei: caralho, como assim velho?
    Eu que sou um perfeito coração de pedra caia aos prantos ouvindo idwmt, era a musica mais perfeita que eu já tinha escutado mesmo sendo melosa, porque era a interpretação perfeita de cada palavra em meio daquele lindo som causado pela banda. Mas porra, Cryin tinha uma energia fora do normal, crazy era mt gostoso de se ouvir e dream on era a saideira perfeita pra ir trabalhar com força total.
    Achei que nao tinha mais o que procurar sobre aerosmith, eu tinha tudo de melhor em 4 musicas.
    Só que eu nao podia deixar de ver outras, eu chegava em casa com saudade de entrar no youtube e VER o steven em ação, não bastava ouvir.
    Ai vem Jaded. Mais uma “coisa do destino”. Uma musica que meu irmão mais velho cantava quando a gente era criança. Muito pequenos mesmo. Ele falava: MY BABY BLUE e eu ficava: que musica é essa? porque que ele fala isso? será que essa musica existe mesmo?
    Mas bom, a única explicação é que a musica é tão boa que com certeza ele ouviu na radio na época e ficou gravada na cabeça dele.
    Mas era inacreditável como só tinha musica foda, a cada clique era um choque novo: angel, living on the edge, amazing, loving in a elevator, falling in love, pink, hole in my soul, dude.. nossa, no mínimo 30 musicas!
    Engraçado que todas as bandas que eu escutava tinha umas 3 musicas fodas e o resto boa, mas Aerosmith, eu tive que fuçar MUITO pra achar musica fraca e esse MUITO é música de começo de carreira pra tras.
    Enfim.. Hoje, já faz 4 anos que Aerosmith virou minha banda favorita e obviamente é tudo culpa do Steven. E não é desmerecimento com o resto dos caras da banda não, adoro o joey krammer, joe perry, tom hamilton, brad.. mas a verdade cruel é claramente vista nas musicas, o Steven se destaca demais mesmo tendo uma puta banda! e isso é algo natural. Interpretação super original, voz incrivelmente doce e de uma potencia sem igual. Ele tem aquele poder de fazer uma musica boa virar excelente.
    Fui ao meu primeiro show em 2016, mas também quando fui, arrebentei a boca do balão, Aerosmith em ótima forma aqui em São Paulo, um show com muita energia e muita emoção, foi sem duvida a melhor noite da minha vida. Jamais vou esquecer.
    Aerosmith faz parte da minha vida desde sempre e espero que isso nunca mude, pretendo até fazer uma tattoo com referência a banda mais pra frente e já estou pronto para ir ao rock in rio dia 21 pra ver o velho soltando AQUELES agudos de novo!

    1. Que legal o seu depoimento… Mas principalmente na adolescência, o Aerosmith era a única banda que conseguia me ajudar a lidar com a melancolia. Não era algo como “sai dessa, se anime!”, era como que um “chore mesmo, bote para fora mesmo”. São canções muito cheias de alma que acolhem o coração como estiver, até em pedaços… Obrigada por ter parado aqui. 🙂

      1. Muito verdade, ja chorei muito ouvindo os caras! Obrigado digo eu, por ter lido essa historinha tão longa que eu contei. É que eu me empolgo muito quando se trata de Aerosmith rs

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