Marianne: a sensibilidade de Jane Austen

Marianne Thinkstock

 

Se você já leu Razão e Sensibilidade da inglesa Jane Austen, deve ter se encantado com as irmãs Marianne e Elinor. A primeira com uma dose desmedida de sensibilidade, com inclinação para poemas de amor e músicas melancólicas e a segunda: prática, racional, com uma força digna de reverência.

A fragilidade de Marianne e sua impulsividade são do tipo tão intenso que pode até mesmo “irritar”. Isso mesmo, o grau de sensibilidade da personagem Marianne irrita. Porque ao ler e conhecer essa fragilidade exposta, você deseja, assim como sua irmã Elinor, que ela desperte, que ela não “sucumba” à vida. Se você não leu a obra, leia. Se já leu, repense.

Marianne ShutterstockMas Marianne é essa sensibilidade exposta, é essa alma nua, é esse livro todo aberto e com letras legíveis à distância. É essa paixão que grita, é esse ardor que ruboriza. Como leitora, é com Marianne a minha semelhança. Como ser vivo, é como Marianne que exercito a existência.

Ela jamais questionaria sobre modos e sobre pertinência. Jamais se podaria, se calaria ou deixaria de morrer caso a causa fosse nobre. Marianne irrita! Você a adverte: “Não!” E ela simplesmente não pode obedecer. Porque seu “pacto” é com sua essência.

Mesmo depois de se decepcionar, o coração não se endurece, embora aos prantos e entregue aos delírios da paixão ou de enfermidades físicas, Marianne se mantém sensível não a ponto de perecer, como pensava sua irmã Elinor, mas a ponto de nos mostrar como deve ser diante da vida.

Talvez você, assim como pensava a racional Elinor ou como eu mesma penso sempre, acredite que é melhor ter “a cabeça no lugar”, ‘é melhor não se exaltar e se preservar’. Sim, é o melhor a fazer. Mas é também se mutilar e quebrar a importante aliança consigo mesmo.

Às vezes é necessário gritar, se expor, deixar a preocupação em estar sendo ridículo um pouco de lado, porque as oportunidades são únicas e passageiras. Não que a racionalidade não seja importante, mas é que nos dias atuais o clamor pela racionalidade tem sufocado a sensibilidade, tem tentado “enforcar” a sensibilidade.

É muito irritante ver Marianne se entregar sem eira nem beira aos próprios sentimentos. O desejo é pegá-la pelas mãos e tentar protegê-la de ser insana. Mas é essa insanidade que nos protege. É essa vida em carne viva que pode ensinar a continuar a vida. É essa “doença” que pode despertar a cura. A sensibilidade pode despertar a racionalidade, mesmo sem perder a própria essência.

Marianne é o nome da sensibilidade de Jane Austen. E é essa sensibilidade que clama. É preciso ser mais vivo, mais louco, mais entregue aos sinais, assim como é preciso ser mais ridículo às vezes.

Ouça sim a voz da razão, saiba sobre o que seria racional, mas não permita que as fórmulas da razão lhe impeçam de ser quem é, não permita que a racionalidade lhe sufoque e lhe impeça de gritar. Por que às vezes é preciso deixar o pus sair da ferida, é preciso sangrar antes da cicatrização.

É necessário deixar a Marianne adoecer de amor até que a razão lhe salve. Mas a razão não te salvará de quedas e decepções. O que é preciso compreender é que a sensibilidade é o combustível que manterá a sua alma viva. A sensibilidade vai te distrair, mas a razão te salvará quando for o momento.

Texto escrito para o site O Segredo: osegredo.com.br

 

 

 

 

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