Álvaro com cor

kid-and-dog-shutterstock_284223179

Álvaro com seus quatro anos de idade e com um universo tão gigantesco em uma imaginação às vezes tão assustadora pensa sobre o que ouve, sobre as palavras que são soltas em sua mente.

Com suas tintas, lápis de cor, giz de cera, ele tenta todos os dias reproduzir uma imagem que lhe traga uma sensação, mas que sensação seria essa? Que sensação, afinal, ele tanto buscava em suas pinturas?

As cores eram a sua obsessão, vê-las juntas era como se deparar com o oceano e debaixo d’água não saber ao certo para onde olhar.

Quando ele via aquelas cores juntas, lhe surgia um sentimento inexplicável, ele não sabia se sentia raiva, alegria, tristeza ou vontade de se esquivar. Bisteca, sua companheira vira-lata, sempre ouvia um resmungo ou outro em voz infantil  — Nã…. Não é isso!

Sempre que ele saía do banho, sua mãe lhe olhava com um brilho de ternura e lhe perguntava com curiosidade — Qual a cor da alegria hoje? Vamos escolher uma cor bem alegre? — Álvaro sorria, mas dentro de sua mente questionamentos sem fim eram feitos, um dia a cor da alegria era amarela, outro dia era roxa, outro dia era azul, outro dia era laranja, outro dia era lilás, então, todas as cores eram as cores da alegria?

Mas e quando a cor da alegria era amarela e o pedaço de queijo que ele não gostava muito, mas tinha que comer, era da mesma cor? Não deveria se sentir feliz por que afinal, a cor escolhida para ser a alegria era aquela? E o que dizer quando a cor da alegria era o marrom, mas lá vinha Bisteca da cor da alegria, derrubando suas tintas, estragando o desenho ou latindo sem eira nem beira? Se o verde era a alegria, por que não se sentia alegre com a cor do caderno de Português?

*****

Álvaro em seu mundo questionava e sempre ao sair do banho sem acreditar muito, dizia à mãe — Qual a cor da alegria hoje? — ela sorria e lhe mostrava aquele universo de cores dentro do armário.

Para o menino não poderia haver várias cores da alegria, só uma poderia ser a cor e essa cor não poderia nem passar perto da tristeza, da raiva, precisava apenas despertar a doce alegria. Ia para a escola, brincava, corria, suava, voltava para casa e reparava, tudo tinha uma cor e todas as cores já eram usadas. Tinha a cor da cortina, a da mesa, a do piso, a do sofá, a da televisão, a do vidro que não tinha cor, a da terra, da flor, do olho da Bisteca, tinha a cor do teto, da luz… Todas as cores estavam empregadas!

Então o menino pensou em criar a cor que seria a única cor da alegria. Era essa a obsessão de Álvaro — ele misturava, misturava, criava desenhos e mais desenhos e nenhuma, nenhuma daquelas cores lhe provocava qualquer sensação que sequer se aproximasse de ser alegria. Em raros momentos ele chorava, soluçava, abraçava Bisteca e perguntava — Será que existe, Bisteca? — ela o devolvia o olhar choroso.

Na escola, Álvaro era o amigo mais solícito, queria ajudar nas pinturas, na organização, queria escolher as turmas na brincadeira, queria escolher o que ia comer, queria organizar as próprias bagunças e as bagunças dos amigos. E quando chegava em casa, imediatamente Bisteca corria ao seu encontro como se perguntasse sobre como havia sido o dia.

A mãe sempre surgia e se divertia com os diálogos entre Álvaro e Bisteca, sim, porque Bisteca conversava com o amigo humano:

— Você viu Bisteca o quanto de desenhos fiz hoje? — sorria o menino para a cachorrinha sentada que lhe olhava fixamente.

— Agora me diz, Bisteca, você se sente feliz com algum? — e então ele começava a mostrar desenho por desenho à cachorrinha, que lhe olhava de maneira engraçada, a mãe escondida na porta tentava sufocar o riso.

— Tá vendo, nenhuma cor dessas é a da alegria, nenhuma — dizia com ar de decepção.

*****

Os anos passavam, Álvaro sempre interessado no universo das cores, nos desenhos, nos contornos, nos livros de pintura que ele não conseguia se concentrar lendo, nas telas que a mãe comprava, e seu quarto era como uma mostra de arte. Eram telas por todos os cantos. Havia quadros na parede, havia quadros escorados em partes do quarto e havia pequenas telas guardadas em caixas. Os pais de Álvaro se encantavam com essa maneira de se divertir e de se expressar. Em cima da cama do menino, tinha um quadro com a imagem de um polvo em tons lilás, amarelo e azul. A assinatura de Álvaro era divertida “Álvaro com cor”. A mãe e o pai viam aquilo com brilho nos olhos. O filho era generoso, gostava da simplicidade e era bonito ver o mundo dele ali materializado por meio daquelas pinturas, daquelas misturas, algumas quase incompreensíveis, mas para ele, era uma alegria, era um mistério e uma descoberta.

Aquela obsessão de outrora de buscar a tal da cor da alegria tinha dado lugar a “O que o dia pode trazer?”. Cada dia era um desenho, era uma história e Bisteca precisava dispor de algumas horas ali sentada observando Álvaro explicar sobre o desenho, sobre o porquê, e claro, era muito divertido para quem via.

O que os pais de Álvaro não sabiam era que no dia em que o levaram para uma casa de adoção de cães para escolher um animal, a escolha não foi pelo que tinha a aparência mais encantadora, o que chamou a atenção de Álvaro foi os olhos da pequena Bisteca, de um caramelo escuro, de uma transparência e de uma doçura que ele não conseguia expressar, mas foi por isso que desejou a cachorrinha, pela cor dos olhos e pela doçura que ele não podia nomear.

Álvaro sofria de uma síndrome que tinha como característica dentre tantas complexidades, fazer a pessoa viver em universos excêntricos e o universo que ele escolhera ou o contrário, era o das cores infinitas.

O menino terno buscava encontrar emoções, respostas, sentidos… Sentia raiva com as cores quentes, sentia a paz com o azul claro, sentia medo com as cores escuras, talvez alguma emoção com os tons mais claros, mas a alegria mesmo, que lhe era oferecida após o banho naquele armário colorido, esta que não era mais a sua obsessão, essa ele não havia encontrado. Ora ou outra ele se perguntava sobre a alegria, mas logo se distraía e deixava de questionar insistentemente.

— Filho, como você gosta de pintar, né? —  perguntava o pai.

— É eu acho que gosto.

— Por quê?

— Alguma coisa eu sinto, mas não sei sobre tudo.

Eram diálogos que às vezes duravam por quase uma hora, mas que não traziam aos pais do garoto mais do que alguma confusão sem grandes alardes… Ora, ele gostava e ponto! De pintar, de contar histórias, de misturar cores.

O menino em mais um dia de pintura, se distraiu por um momento, passou os dedos no pelo de Bisteca, observava aquele marrom claro, depois olhava para a sua cama, para a cor do porta-retrato, para a cortina verde com um tom encardido e para a cor lilás em uma das paredes, afinal, havia cores por toda parte. E talvez houvesse as cores invisíveis, aquelas que se escondiam dos olhos para manter o mistério de sua existência. — E se o latido de Bisteca fosse colorido? — ele pensava.

*****

Os anos passavam, o garoto crescia, o desejo pelas cores nunca morria e sempre de alguma forma havia uma tonalidade para colorir algum mundo à parte.

Bisteca já estava velhinha, mas mantinha aquela paciência por meio daqueles olhinhos. Álvaro não lhe perguntava mais sobre os desenhos, mas costumava conversar com ela enquanto pintava e pensava alto. A cachorrinha era uma amiga, uma companheira, como uma irmã e era intrigante o quanto o comportamento dela e do garoto se pareciam. Ela quase não latia, era observadora e talvez um pouco assustada demais com novidades.

Velhinha, Bisteca veio a adoecer, Álvaro já era um adolescente de dezesseis anos, frequentava cursos de pintura, além de sua paixão cotidiana. Bisteca tinha um problema respiratório e sentia ora ou outra falta de ar. Sempre que começava a ofegar e a fazer um grunhido desesperado, Álvaro abria as janelas da sacada e levava a cachorrinha para o contato com o ar fresco.

Depois de algum tempo com essas dificuldades, Bisteca morreu. Ninguém poderia imaginar que a tristeza pela morte da vira-lata pudesse provocar no garoto tamanha dor. Depois da morte de Bisteca, Álvaro parou de pintar, não quis mais frequentar o curso, não quis mais pegar em pincéis, não quis mais sequer olhar os quadros em sua volta. Todos foram retirados da parede, empilhados e cobertos por um lençol.

Os pais do menino tentaram conversar, mas ele sempre respondia “Por enquanto, não”. Não havia mais os olhinhos de Bisteca, não havia mais a atenção canina para as suas histórias, não havia mais a única Bisteca.

Foram exatos dois anos sem pinturas, dois anos sem pensar em cores, em tons, em texturas… Só havia música e a busca pela ausência das cores. Mas no fundo ele sabia que as cores nunca se retiravam para a dor de ninguém.

Em uma tarde de outono, a mãe como de costume, veio trazer as camisetas lavadas. Álvaro estava com fone de ouvido deitado na cama e observava enquanto sua mãe abria o armário e arrumava as roupas. Imediatamente lhe veio a recordação de quando após o banho, sempre lhe perguntava “Qual a cor da alegria hoje?”. Depois que sua mãe deixou o quarto, ele se dirigiu ao móvel, abriu e observou. Lembrava de como ansiava finalmente encontrar a cor da tal alegria da qual a mãe sempre falava

E aí pensando, como num exercício frenético e exaustivo, o rapaz via que a alegria e todas as emoções poderiam habitar em todas as cores. Poderia estar no cinza do porta-retrato com a foto de quando tinha cinco anos e ganhou a primeira bicicleta, ou poderia estar no canto da sala naquele verde da samambaia. Poderia estar em qualquer tonalidade, e claro, poderia ter morado todo aquele tempo, principalmente no seu quarto. Morava nos olhinhos caramelo escuro e cristalinos de Bisteca, morava na maciez do pelo marrom e naquela respiração ofegante que se esforçava em não deixar de ser. A alegria poderia revezar em cores, se esconder dos olhos, procurar sempre pelo mistério da simplicidade. Seria muito simples uma única cor que representasse tudo aquilo que os humanos mais querem!

Álvaro raramente se emocionava, mas naquela tarde ele não conseguia conter as lágrimas. Ao retirar o lençol, observava cada quadro e naquela assinatura que ele fazia quando criança “Álvaro com cor” que depois foi substituída pelo seu sobrenome em uma caligrafia sucinta.

Retirou uma tela branca e resolveu que talvez fosse bom uma homenagem a uma amiga especial. Apenas os olhos caramelo em um fundo verde. Apenas os olhinhos da paciente Bisteca e no final não caberia outra assinatura que não fosse aquela infantil, cheia de ternura e daquela simplicidade sem cor, que poderia ter qualquer tom, desde que trouxesse uma coloração que provocasse um pouco de sentido e de paz. Qual a cor da alegria, então? Qual a busca de agora? Qual o sentido em não sentir?

Conto inspirado no Transtorno de Asperger (um quadro de autismo leve)

Anúncios

3 comentários em “Álvaro com cor

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: