A ANATEL QUER TRETA? NÃO VAI SER FÁCIL FILHOTA…

China veta informações políticas em aplicativos de mensagens de celulares

Confesso que me voltei ao assunto em torno da Anatel e suas “providências” acerca da internet por esses dias. E aqui estou ouvindo Florence + The Machine, por meio do YouTube, porque existe internet. Ouço música ao mesmo tempo em que leio notícias acerca do assunto e, me sinto numa espécie de atmosfera de mergulho na informação e de pretensão idiota de achar que posso saber sobre tudo em algumas horas. A internet me faz pensar assim. Aliás, a internet faz com que a maioria da população mundial pense assim. Há algum poder.

A polêmica é o plano da Anatel de redução de velocidade da internet fixa por parte das operadoras de acordo com o limite de download de cada pacote. Mas no sábado (22), a empresa anunciou que proibirá os limites na internet de banda larga por prazo indeterminado. Esse “tempo” é para que as operadoras ofereçam aos clientes a possibilidade de acompanharem a própria utilização do pacote de serviços contratados.

SERÁ QUE A ANATEL COLOCARÁ ESSE INTENTO EM VIGOR ‘TRANQUILAMENTE’?

 

anatel loucaPara Pierre Lévy (1996, p.15) deve-se considerar inicialmente a oposição fácil e “enganosa” entre real e virtual. A palavra virtual é empregada com frequência para dar significado à pura e simples ausência de existência: “[…] a “realidade” supondo uma efetuação material, uma presença tangível. O real seria da ordem do “tenho”, ou da ilusão, o que permite geralmente o uso de uma ironia fácil para evocar as diversas formas de virtualização”.

O autor leva a refletir que qualquer situação que envolva ilusão ou a falta da presença do “ter” efetivo, seria como virtualização, o que poderia ironicamente significar que tudo que não existe é como parte da virtualidade.

Mas logo em seguida, o filósofo francês explica que o virtual não se trata de uma oposição ao real, mas ao atual. Contraria o possível, o estático e o já constituído. Lévy apresenta o virtual como complexo problemático, como nó de tendências ou de forças que acompanha determinada situação, acontecimento, objeto ou entidade e que requer um processo de resolução, conhecido como atualização (LÉVY, 1996, p.16)

Pollyana Ferrari no seu livro Jornalismo Digital, descrevia a internet em um processo de gestação, a caminho de uma linguagem própria. Para a autora, a internet não poderia ser encarada como uma mídia que surgia para viabilizar a convergência (o caminhar junto) entre rádio, jornal e televisão: “[…] A Internet é outra coisa, uma outra verdade e consequentemente uma outra mídia, muito ligada à tecnologia e com particularidades únicas. Ainda estamos, metaforicamente, saindo da caverna (2004, p.45)”.

Estávamos saindo da caverna ‘literalmente’ em 2003 (quando o livro foi lançado), e se pararmos para pensar, 13 anos após a obra da pesquisadora, talvez tenhamos de fato saído da caverna, mas não com tanto tempo de sobrevida após esse “batismo digital”. Como crianças aprendendo a caminhar com dificuldades e no encantamento de cada passo… Mas de repente, surge alguém com um cercadinho ou com um andador, ditando como esses passos devem ser dados e a percepção de “falsa liberdade” incomoda e muito.

Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman no livro 44 cartas do mundo líquido moderno, na carta No rastro da “geração Y”, o autor propunha uma reflexão de que tudo que nos é fácil, constante e fartamente acessível tende a ser óbvio demais para ser notado, pensado ou refletido:

“[…] Sem ar para respirar, não sobrevivemos mais que um ou dois minutos. Mas se nos pedissem para fazer uma lista das coisas que consideramos “essenciais à vida”, dificilmente nos lembraríamos de mencionar o ar. Na hipótese improvável de inclui-lo, ele aparecerá no fim da lista. Simplesmente presumimos, sem pensar, que o ar está presente a qualquer hora, em qualquer lugar; tudo o que temos de fazer é inspirá-lo na quantidade que nossos pulmões permitem (BAUMAN, 2011, p.60)

Já para Santos (2003, p.73) a tecnologia digital não facilita apenas o acesso, a emissão e a produção de informações, mas possibilita novas formas de socialização:

“[…] Os usuários, conectados à rede mundial de computadores, criam espaços para o debate (chats) e interagem a partir de pontos comuns de interesse. Forma-se uma comunidade que desenvolve até novos códigos e linguagens (como pode ser constatado nos diários virtuais, ou blogs). ”.

O quanto a Internet faz parte das nossas vidas? O quanto de transformações (nem todas dignas de louvor) começaram por meio de uma tal de “usabilidade”, principalmente das redes sociais?

Para milhares de pessoas, ter internet não é apenas entretenimento, mas é uma fonte de renda, representa trabalho. É uma ferramenta de expressão de opiniões. E quanto ao entretenimento, não se trata de um “apenas”, mas de um direito, de uma conquista, de um avanço, de uma ligeira e viciante evolução.

Não é coisa de jovem e da geração Y apenas não, a internet é um respiradouro para pais, filhos e avós. Ver uma novela antiga, uma receita de bolo, um filme para tornar uma tarde menos tediosa ou aquela série do momento que fará alguém esquecer por algumas horas das próprias crises existenciais enquanto ser humano.

Será assim, simples como a Anatel acredita que é? Será que depois de oferecer a liberdade ou uma certeza “ilusória” sobre ela, é possível tomar o doce assim com essa facilidade?

Sabe Anatel, depois dos primeiros passos e da sensação de andar sem se escorar pelas paredes como bebês ávidos por conhecimento, propor um cercadinho a essa altura do campeonato não será assim tão simples. O que está em jogo não é só a internet, é a tal da liberdade, que a gente nem sabe se pode existir mesmo quando se está em uma bolha chamada Terra.

Fontes

Anatel proíbe limites na internet de banda larga ‘por prazo indeterminado’. G1. São Paulo. 22, abr. 2016. Disponível em: g1.globo.com/economia/noticia/2016/04/anatel-proibe-limites-na-internet-de-banda-larga-por-prazo-indeterminado.html

BAUMAN, Zygmunt. 44 cartas do mundo líquido moderno. Tradução Vera Pereira. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

FERRARI, Pollyana. Jornalismo Digital. 2. ed. São Paulo: Contexto: 2004.

LÉVY, Pierre. O que é virtual? Tradução Paulo Neves. 1 ed. São Paulo: Editora 34, 1996.

SANTOS, Roberto Elísio dos. As teorias da comunicação: da fala à internet. São Paulo: Paulinas: 2003.

 

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