NÃO PERMITA QUE LHE ENGESSEM

Tinha uma professora de História no Ensino Fundamental, não me recordo se na 6ª ou 7ª série, chamada Bernardete, que era conhecida por ser austera, a mim nunca produziu o pânico que era tão comum à maioria.

Certa vez, Bernardete solicitou um trabalho de apresentação oral em grupo e cada grupo deveria ficar com um período específico da História e suas particularidades, o meu grupo foi sorteado para falar sobre a civilização egípcia, no tempo do Antigo Império, com foco no Faraó e suas funções. Ela deixou bem claro que não queria folhas e mais folhas de texto, mas que queria uma apresentação que demonstrasse que os grupos haviam compreendido sobre o que pesquisaram.

Estudava em uma escola com péssimas condições de infraestrutura, não havia uma variedade de livros para pesquisa com detalhes o bastante e a internet era discada, não se podia perder tanto tempo pesquisando, além do mais, não havia esses buscadores velozes que existem hoje.

Meu grupo era composto por três meninas, contando comigo e, nenhuma delas havia conseguido informações tão precisas, tínhamos menos de uma semana para a apresentação. Chegou no dia, as anotações não davam nem uma página completa e eu tinha certeza de que íamos ter notícias más em História.

Tive uma ideia meio louca, resolvi escrever sobre o que não havia lido sobre Faraó, resolvi fazer uma crítica (risos), mas pensei: “Será loucura se eu expor isso”. Estava me conformando com a ideia de apresentar algo bem incompleto e estava apreensiva naquele dia antes de sair de casa. Minha mãe me perguntou o que era e eu disse, e o conselho foi: “Se for muito ruim, algo vai aprender”.

Então vimos dois grupos apresentarem e Bernardete com aquelas críticas. Chegou a nossa vez, entreguei uma folha de almaço com metade da primeira folha escrita com caneta azul e só. No meu bolso estavam as minhas anotações e começamos a apresentação. Estava vermelha como um pimentão e comecei dizendo que não havia informações o suficiente, principalmente sobre a questão de Faraó, mas que Faraós eram muito egoístas e despreocupados com o povo e o que lhes importava mesmo era ser quem eram, mesmo que as pessoas vivessem em péssimas condições (risos). Lembro das meninas me cutucando, querendo que eu parasse de falar, mas me lembro de Bernardete me olhando com aquele brilho que misturava ódio com não sei o quê. Terminamos e ela disse que era aquilo que queria e que não desejava que repetíssemos nada de livros e que queria ver a demonstração do aprendizado.

Quem dera houvesse mais Bernardetes no mundo! Hoje o que mais existe no planeta são pessoas engessadas como que vestindo uma capa, uma condição, uma conveniência. Querem o trivial, porque só conhecem o trivial ou porque não sabem lidar com algo que fuja do controle das próprias crenças. Querem o racional, a metodologia, porque é assim, há o método para não haver erros. E os erros que servem para alguma edificação na alma, são desprezados como o osso que no fim das contas alimenta os cães famintos.

No mundo escolho ser Bernardete, escolho fugir do gesso ou queimá-lo no próprio corpo, caso sinta a tentativa do pior crime: o roubo da essência. Escolho ser o osso que dá sustento ao cão esperançoso que não sabe como, mas que vai comer em breve.

Se você é alguém das Letras, quer um conselho? Fuja das Academias. Elas aguardam apenas as fórmulas ou as vindouras décadas para que os “imortais” sejam lembrados.

 

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