O homem que morreu com a fama de velho demônio

 

funeral

Gumercindo das Luzes no auge dos seus noventa anos era desses velhos rabugentos como tantos outros por aí, nada quisto pelas crianças, suportado pela família… A mulher, Julieta, morrera dez anos antes e parecia que depois da morte da mulher, Gumercindo só havia piorado.

— Se eu ver mais planta sendo destruída no meu quintal, cês vão ver só seus bando de diabo!

As crianças corriam em retirada, com as faces coradas e com aquela respiração ofegante que misturava medo com sensação de valentia.

Sozinho, os hábitos de Gumercindo eram os mais metódicos possíveis. Tinha a hora do café com aquele pão que precisava ser corado só de um lado e que precisava ter geleia apenas na parte esquerda, porque o doce enjoava. O almoço era sucinto, sempre comia pouco, um cálice de vinho e uma gritaria:

— Podia por mais sal nessa comida né, Alzira?

— Mas o senhor não pode comer sal, seu Gumercindo.

— Um velho de noventa anos tem medo de morrer? Ora bolas!

Alzira se retirava e ria, Gumercindo por mais ranzinza que fosse era humorado, tinha um jeito de falar do passado com um tom teatral. Enquanto limpava a casa, o velho escorado em sua bengala falava e falava. Alzira tinha quarenta anos de idade, dois filhos e o marido trabalhava em uma fábrica na cidade vizinha, depois que Julieta teve o primeiro infarto, o filho decidiu que a mãe não seria mais teimosa em continuar com as tarefas de casa e aí contratou Alzira.

Enquanto Julieta era viva, Alzira era como uma grande amiga, e depois do falecimento dela, mesmo que Alzira sequer imaginasse, o velho Gumercindo a tinha em alta conta. Sempre dava um jeito de pagar um pouco mais para a cuidadora.

Do outro lado da rua, vivia Prestes, Heitor Prestes, de oitenta e nove anos, ele fora amigo de Gumercindo nos tempos do colégio, mas não foi um bom amigo, gostava de Julieta, queria a paixão do amigo para si, inventava mentiras e tramóias para manter a moça afastada do grande amor e diante do amigo, agia como se nada soubesse. Certa vez, Gumercindo acabou descobrindo um bilhete nas coisas do amigo e viu que era uma carta para Julieta, contando uma mentira, dizendo que ele havia passado a noite no prostíbulo. A amizade se desfez e nunca mais se falaram. Sempre que Gumercindo passava pelo ex-amigo, virava a face. E embora Prestes tivesse feito a vida, se casado, tido filhos, a vida de Gumercindo para ele, parecia mais bem vivida que a sua. Durante bons anos ele ainda cobiçava a beleza de Julieta e de alguma forma, ver Gumercindo feliz com o filho ainda pequeno era motivo para passar a tarde enfezado.

Para a pequena cidadezinha, que nem interessa tanto à história, Prestes era um dos senhores mais queridos, as crianças o amavam, não ameaçava furar bolas, não cortava linhas de pipas e era sempre amável com todos. Os filhos lhe eram amáveis por ser idoso, mas nos tempos da juventude, o pai era um perfeito boçal.

Prestes também tinha uma cuidadora, Lourdes, mas que diferente de Alzira, não achava muita graça nos dias ao lado do velho Prestes, era mesquinho, não deixava que comesse sequer um dos biscoitos e em todos os meses do pagamento da pobre mulher, lá vinha Prestes questionar se realmente ela merecia ganhar o que ganhava. Mas isso acontecia dentro das paredes da velha casa, sob cortinas em tons pastéis, para todos os outros, Prestes era um sujeito digno de reverência, um dos melhores homens da cidade.

Gumercindo era o velho suportado, o filho único só foi amável até a adolescência, depois, foi como se algo o transtornasse, foi se afastando do pai, como se uma atmosfera de austeridade fosse se formando em sua alma, lhe impedindo de demonstrar qualquer sentimento.

O velho nunca fez questão de ser querido, na verdade desde muito pequeno Gumercindo nunca fez tanta questão de ser enxergado, como se lhe bastasse saber sobre si mesmo. Certa vez, com sete anos de idade em uma das missas a que precisava frequentar sob protestos dos pais, o padre em seu sermão disse sobre a onisciência de Deus, e que por mais que o homem tentasse fugir dos olhos divinos era vão, e que por mais que quisesse se esconder diante dos homens, jamais poderia se esconder diante de Deus. Naquela noite, o menino Gumercindo não conseguiu pegar no sono rapidamente e pensava e pensava, como se aquele simples sermão lhe tivesse fincado uma certeza que lhe pouparia das mais tremendas infelicidades do mundo — cresceu sem depender de ser bem quisto.

Gumercindo fazia coisas que sequer Julieta soube em vida, todos os meses contribuía para uma instituição de cegos e certa vez lhe bateu uma angústia por conta de um garoto músico de uns doze anos de idade, que só podia tocar violino na instituição, porque não tinha como comprar o instrumento. Gumercindo atrasou a reforma na cozinha que Julieta tanto havia lhe pedido, para dar ao menino aquela alegria. Deixava sempre os restos de alimentos que sobravam do almoço e jantar para algum animal que aparecesse e sempre fazia questão de que Alzira levasse fosse um pacote de biscoitos para as crianças, fosse um pote de geleia de damasco.

Alzira sempre falava com o marido que o velho era um homem bondoso e que tinha apenas uma casca de ranzinza.

Gumercindo era tido como um demônio na cidade, um velho chato, e o que não lhe faltavam eram agouros de morte. Quando ele finalmente morreu, o funeral foi sucinto e rápido, flores apenas do filho e de Alzira, lágrimas mesmo apenas de Alzira. O filho apenas havia se recordado de quando era criança e do quanto gostava de se divertir com o pai.

Prestes ainda vivia, soube da morte de Gumercindo pelas línguas soltas, e por dentro se regozijava, era como se a morte do homem antes dele lhe trouxesse um quê de vingança tardia. Mas por fora, ele ainda era o doce e bondoso velho.

Gumercindo para a cidade foi como um velho e cruel demônio, mas isso nunca passara pela sua cabeça e talvez se ele soubesse nenhum efeito lhe surtisse, de alguma forma aquele sermão na missa de domingo lhe blindou da hipocrisia que reina na vida.

 

 

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