15 adolescentes disseram sim, incluindo Clara

violence woman

Batata, cenoura, e garrafa, tudo isso na genitália

Texto por Juliana Rodrigues

Essa história é real e marcou a vida de quem estudou na Escola Estadual Eliane Dantas na oitava série. Cochichos e celulares rondando na sala de aula, risadinhas e rostos de indignação, um tanto de vergonha. Até que a professora Meire incomodada com a situação resolve saber o que está acontecendo.

Ao olhar o conteúdo que passava por inúmeras mãos, a professora ficou pasma, incrédula e resolveu levar o caso até à direção. Naquele momento, todos sabiam o que Clara havia topado fazer, mas ninguém pensou ou sequer questionou o que TODOS e também responsáveis haviam concordado em participar. Entre os 14, um garoto com quem eu conversava da minha classe, um adolescente tranquilo e de ‘família’ e faces como a dele nos leva à questão: “Qual família estamos construindo?”

E hoje Clara, com os meus 23 anos, enxergo isso como estupro, porque mesmo que a mulher diga sim, não existe aquiescência para a barbárie. Diante do que é desumano e bizarro alguém deve se compadecer, foram 14, mas são 30, 40, 50, milhões…

Você disse sim porque dentro do seu corpo havia um vácuo imenso e uma solidão que pensava poder ser preenchida, eu te compreendo. Você disse sim de forma inconsequente, foi perturbador e infelizmente te trouxe ainda mais feridas. Hoje, Clara, eu compreendo com amor tudo o que viveu e a sua dor por cada batata, cenoura, garrafa empurrada na sua genitália ao som de risos. Doeu na alma, percebo a sujeira que sentiu após permitir isso. Não te chamarei de safada, não te condenarei, porque o único mal que fez foi para si mesma.

Mas aí eu me pergunto: e esses rapazes, onde ali estava a compaixão? Nenhum deles obteve um olhar humano sobre essa moça a ponto de se perguntar: porque ela está fazendo isso? Por que estamos fazendo isso? Por que isso é engraçado? Estamos felizes e satisfeitos após participar desse ato sujo e cruel?

O que é crueldade? Ainda não sabemos, até hoje a humanidade não sabe o que é crueldade e diz sim.Todos eles disseram sim, filmaram, compartilharam e riram.

Uma reflexão mais uma vez é deixada ao se tratar da educação dos filhos e dos reflexos que podemos deixar para o mundo. Até quando a irracionalidade coletiva irá dominar a nossa face desumana? Quando a mãe ou pai diz: “você não é todo mundo”, realmente, não somos todo mundo, somos cada ser único e insubstituível, cada ser composto por sentimentos, por amarras, por vazio. E esse vazio, querida Clara, você apenas tentou preencher. Não sabemos a sua história e tampouco se houve amor. Mas algo eu tenho certeza, do oco que habitou em você naquele momento. Que o universo tenha compaixão. E aos 14 que também disseram sim, a esses que acharam divertido o pensar coletivo, o enaltecer da sujeira por um ato banal e desumano, dizer não a desumanidade é o primeiro não essencial para a vida.

E mesmo que exista aquiescência, mesmo que exista o sim e a permissão. Sejamos mais humanos, sejamos mais decentes, pois o sim não justifica a crueldade para com o outro. A bebida, a droga, a roupa ou a classe social, nada justifica a crueldade que possui uma única face.

Lembre-se: homens e também mulheres, se uma pessoa quiser que você faça o mal a ela, você fará porque ela permitiu? Por que está num ambiente ‘propício’? Se uma pessoa agonizar por socorro, você irá ser mais um a agredir por que todos estão fazendo e isso te livra da responsabilidade? A consciência nunca foi encontrada entre nós.

Com Clara foram 14. E quantos homens diriam sim a esse ato infeliz e repugnante? O que quero deixar claro é que diante do sim ou da negação, acordada ou dormindo, do álcool, droga ou nudez, a desumanidade e a crueldade jamais será justificada, não há contexto.

Não seja integrante de um bando cruel, seja único num espaço oco, pois só o amor nos preencherá. Nunca cultue o ódio, mesmo diante da sujeira.

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