Álcool, rodeios e lugar nenhum

drink

Estava lendo um pouco de Fernando Sabino e como sempre, gargalho em vários momentos, Sabino tem uma obra muito clara, muito fácil de entender e ao mesmo tempo inebriante, porque ao ler me sinto ali ouvindo da própria boca dele os relatos, nesse caso, crônicas.

E aí em determinado momento ele contava sobre os porres que já tomou, sobre os traumas depois do exagero e sobre como enquanto se bebe, esquece-se o rumo da conversa, a gente acha que vai chegar a algum lugar, mas nunca chega, a conversa termina como se estivesse no começo ainda.

Cada um tem uma fase na vida, há quem não consiga colocar um gole de álcool na boca, há quem goste sim de degustar uma boa bebida e há quem goste tanto que precise até mesmo segurar a onda para não passar do ponto.

Já fiz amigos “para a vida toda” por conta do uísque. Já me apaixonei cegamente com uma dose de vodca, já me tornei filósofa com taças de vinho, já tive crises de riso com cerveja e já me achei fluente no espanhol com doses de cachaça… Sem contar a arte de saber dançar sem saber dançar…

Mas o que vai mudando na vida são as nuances de como se vive. O álcool já representou na minha vida um quê para torná-la um pouco mais fácil de ser vivida, mas hoje ele é que precisa de mim para se fazer valer (risos).

As doses de álcool são como amigos imaginários em lugares diversos. Ninguém sabe que você tem amigos de outros universos, mas às vezes você se conecta a eles e flui com eles dependendo do quanto interage… É o combustível para que se dê a volta em torno do tanto de coisas que muitas vezes passam despercebidas na vida, no dia a dia ou que não saltam aos olhos para converter complexidades em caminhos mais suaves.

Fala-se, fala-se e para quê? É como se a gente conversasse com um amigo sonâmbulo, que no dia seguinte não se lembrará de uma palavra sequer ou se lembrará de algo vagamente, até que em algum dia pergunta: “foi para você que eu disse aquilo?” ou “foi você que me disse isso?”.

Se você não é adepto ao consumo do álcool, estar com pessoas que estão tomando seus cálices não é mesmo o mais indicado, porque os mundos dali para frente serão separados, algumas escolhas serão feitas sem que se perceba e aí discute-se desde a Grécia Antiga até a letra de forró ouvida na rua um dia desses.

Não sou nenhuma especialista em bebidas alcoólicas, tampouco uma apreciadora frequente, mas acho sim interessante escrever sobre isso, porque até quando se escreve, parece que anda-se em círculos, no mesmo espaço, com a diferença que explora-se outras possibilidades.

Talvez o álcool seja para muitos como que um desejo de transcender na vida, talvez represente um anseio de dizer sem medos o que se sente e aí podemos aprender um pouco também com essa prática, que há quem chame de vício e de perdição (em alguns casos pode ser). De repente, o tempo vai ficando mais curto para refletir tanto no que os outros podem pensar e aí depois de questionar sem cessar, percebe-se que viver embriagado independe da ingestão de doses de álcool. E então você passa a beber menos, mas acaba mentindo com mais frequência, quando te perguntam “o que foi mesmo que quis dizer?” você prefere dizer: “deve ter sido o álcool” e a prudência dos seres sóbrios ao redor sequer os faz perceber que sobre a sua mesa só existe uma fatia de bolo de fubá e café amargo.

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