Há mulheres que vivem uma dor que não pode ser chamada por nome algum

 

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Não importa a religião, não importa de onde essa mulher é,

Se é rica ou pobre,

Não interessa a raça, não, não é importante.

Essa mulher perdeu algo que lhe nasceu das entranhas,

Perdeu um amor maior do que poderia imaginar,

Ela me faz pensar… sobre a morte.

Quando me deparei com o Instituto Mães SemNome, me intriguei com a apresentação na página na rede social:

Quando um filho(a) perde seus pais fica órfão(a). 
Quando perdemos o marido/esposa, ficamos viúvos(as). 
Quando a mãe perde seu filho, não tem nome.

E realmente não tem…

07.11.14Marcia Noleto, Ipanema.
Foto: Selmy Yassuda
Foto: Selmy Yassuda

A presidente do Instituto Mães SemNome, Márcia Noleto, conta que a iniciativa da criação do Instituto surgiu de uma necessidade pessoal de compreender sobre o que estava lhe acontecendo:

“A iniciativa foi viralizada na rede e causou um efeito dominó. Dei um grito público. Fiz um pedido de socorro. Poderia ter sido qualquer outra mãe. Mas, uma vez disseminado o pedido, todo mundo se sentiu à vontade para fazer o mesmo.”

Márcia destaca que logo depois desse momento inicial, ficou clara a primeira dificuldade de toda mãe que perde seu filho — entender o que lhe aconteceu:

“Por quê? Por que comigo? E se eu tivesse feito alguma coisa para impedir? O que faço agora? Como vou continuar a viver assim? Será que vou precisar me medicar a vida inteira? Como suportar a saudade? Por que o destino trouxe essa tristeza para a minha vida? Por que Deus fez isso comigo e com minha família? O que está errado afinal?”

E foi nesse momento que a idealizadora do projeto percebeu que todas estavam juntas, gritando por ajuda e discutindo as questões que envolviam as mortes. E em cada história contada, via-se um viés de violência no trânsito, de preconceito racial, de exclusão, de descaso com a saúde pública: “No final das contas, estávamos falando da saudade, mas estávamos também discutindo a falência da nossa sociedade e como todos nós estamos pagando por isso”.

Para Márcia, é gratificante ver como o Instituto Mães SemNome cresceu e se fortaleceu, como fruto de solidariedade e de união das mães: “As mães doam diariamente o seu tempo para essa causa. Também doam sua energia e transformam a dor em uma atividade que repercute socialmente. Um exemplo disso, foi o lançamento da Cartilha Jurídica do Luto (informações no final).

A idealizadora do projeto relata que aceitar a dor é um exercício diário e que obviamente não é fácil. Essa aceitação começa desde o dia da perda, mas também dessa dor podem surgir frutos:

“A escrita, a arte, os projetos desenvolvidos, as músicas compostas, todos esses mecanismos nos ajudam a entender. E, gradativamente, vamos, cada uma no seu tempo e de sua maneira, descobrindo uma forma de destrinchar essa dor. O sofrimento, desde os antigos bardos, sempre foi fonte de inspiração.”

Sad woman sitting alone near window

A presidente do projeto ressalta que a dor é um caminho que pode tecer inúmeras saídas e que o sofrimento e caos podem trazer outras possibilidades, assim como muitas mulheres depois da vivência da perda, acabam optando por outra maneira de viver.

Márcia explica que em um primeiro momento após a perda do filho(a), as mulheres em estado de choque (que pode durar alguns anos), desejam até mesmo morrer: “É realmente inaceitável pensar na possibilidade de viver feliz. Mas a vida se impõe, trazendo outros acontecimentos, alegrias, surpresas… Vamos ressignificando a dor”.

Para ela, não há um conselho ou fórmula pronta, porque cada pessoa é um ser singular e reage do seu modo:

“Quando acontece uma tragédia na sua vida, fica subentendido que é hora de parar e de se dedicar a si e à família. Pensar, chorar, sentir-se. Repensar, refazer, reconstruir. Evitar que a tristeza lhe paralise. É hora de acolher os sentimentos e reelaborá-los. Cada um encontra o seu jeito de renascer.”

São tantas as histórias, são tantas as tragédias e tantas mães ao redor do mundo choram  a morte de seus filhos… Muitas famosas, milhares desconhecidas, mas em comum, essas mulheres têm em si uma lacuna de dor, um silêncio que clama pela eternidade.

Antes de escrever sobre este assunto revi os relatos de Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella Nardoni, que ficou conhecida em meio a uma tragédia em que imagino que o único desejo dela naquele momento fosse desaparecer.

Também lembrei-me de Maria, como mãe de Cristo, sofrendo enquanto seu Filho cumpria sua missão até à crucificação.

Que a dor pungente não lhe dilacere,

Que o desejo da morte não se torne em ti uma obsessão,

Que algum dia essas lágrimas possam percorrer seu rosto por outro caminho que não seja esse de dor, mas de recomeço.

Que as lembranças de alegria possam refrigerar a sua alma e lhe dar algum ânimo por mais pequeno que seja.

Isso é uma oração. Uma prece de uma desconhecida.

Márcia o que te motiva?

— A vida.

“Quando uma mãe chega pedindo ajuda despedaçada, e quando vemos que o Instituto Mães SemNome e todas as mães que dele fazem parte a acolhem e ela vai se refazendo… E anos depois, ela está conosco, trabalhando em um evento… Ah! isso me motiva.”

Se quiser procurar o Instituto Mães SemNome para conversar, há os seguintes canais:

Site: www.maessemnome.com.br (no site consta a Cartilha Jurídica do Luto para baixar)

No site, a mãe pode se cadastrar, receber informativos e fica sabendo sobre os eventos.

No Facebook: www.facebook.com/maessemnomereaprendendoaviver

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Sobre a Cartilha Jurídica do Luto e Grupo de Apoio Mútuo (GAM)

A Cartilha Jurídica do Luto foi feita em conjunto com a Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas (Rio de Janeiro). É um trabalho gratuito, que está no site do Instituto Mães SemNome. Essa cartilha auxilia as pessoas que desejam tirar suas dúvidas sobre vários assuntos que envolvem o episódio da morte como: seguros, heranças, cancelamento de documentos etc. E foi feita por meio dos relatos das próprias mães, como uma contribuição social.

Também há o Grupo de Apoio Mútuo (GAM), que funciona semanalmente, na Clínica Pollen, em Botafogo (RJ). Nele, as mães podem trocar experiências e discutir questões em torno de suas vivências. Este núcleo tem coordenação das psicólogas Judith Nemirovsky e Fatima Giovagnini, ambas Mães SemNome.

 

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