“Porque batalhas fáceis formam só soldados fracos” – Prodigio

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Sebo restaurado em Guaianazes – imagem do mural.blogfolha

Cheguei até ele por meio de uma péssima notícia que se transformou em uma história de recomeço. Um sebo destruído em Guaianazes, Zona Leste de São Paulo e uma iniciativa de dois amigos, Adriano Vicentini (rapper Prodigio) e seu amigo Lucas Messi que reformaram o velho sebo com grafitti e claro, com muita esperança. Mais da metade do acervo de materiais já foi recuperado.

O que me chamou a atenção mesmo foi o nome usado pelo rapper, Prodigio, assim, sem o acento no i, porque é o que acredito ─ há uma predestinação nas palavras, assim como o ‘correto’ seria plutoniana e não plutônica. Prodígio que significa resumidamente  algo que contradiz as leis da natureza. Quem é esse rapper, esse grafiteiro?

O rapper de 37 anos nasceu em Itaquera. Nascido em uma família pobre presenciava frequentes brigas entre seu pai alcóolatra e sua mãe, que saiu de casa quando ele tinha 6 anos de idade. Mas mesmo em meio às dificuldades, teve uma infância feliz de brincadeiras com seus 4 irmãos.  Aos 9 anos, teve o contato com o grafitti e com o Rap e logo se identificou por conta dos protestos políticos e sociais que se faziam presentes nas duas artes. Com 16 anos, foi internado com lúpus, perdeu a vesícula e baço, e com 18 anos conheceu a esposa, com quem teve seu primeiro filho.

No grafitti, a inspiração para Prodigio veio dos artistas: Os Gêmeos, Binho, Bola 8 e Daim. Na música, a inspiração é: Mano Brown, Planet Hemp, Eminem, Wu-Tang Clan, Led Zeppelin, The Doors, Renato Russo e Bob Marley.

Prodigio acredita que o Rap foi a referência para a vida que ele não teve em casa:

“Ajudou muito a formar o meu caráter, representa pra mim meu estilo de vida. Quando canto, sinto que transfiro muito do que sinto para a alma das pessoas, pois quando a música é feita com verdade ela se transforma em uma troca!”

Já o grafitti para ele representa a arte de um povo periférico que expressa suas angústias e sentimentos por meio dos traços do spray e outras tintas:

“Antigamente as gangues no Bronx (EUA) demarcavam território com grafitti, hoje ele tem um estilo de cunho social e poético que muita molecada usa como referência, ou seja, grafitti transcende a arte.”

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Adriano Vicentini – rapper Prodigio

O que o motiva na vida são os dois filhos, a esposa e o que ele considera como teimosia, que é tentar viver da própria arte:

“Infância em condições precárias, separação dos pais, viver com pai alcoólatra, passar fome, ter doença grave… É… acho que tive um pouquinho de provações na vida (risos).”

Imagina que a criança que você foi está diante de você agora, o que você diria a ela?

“Você é o único representante dos seus sonhos nessa vida, então vá atrás com todas as suas forças!! Áááá´… E NÃO ACREDITE NO PAPAI NOEL!!!”

Um trecho de sua própria música o inspira:

“Alma cansada na estrada, soldado sem farda

Aprendendo com as respostas que nunca foram dadas

De quem um dia disse que você não existe

Insiste, persiste, se te ofuscam, vai e brilhe!

No barraco madeirite, com telhas brasilit

Se sonha com o universo, o céu já não é o limite

Eu falo de pensamentos ao vento na minha grafia

Falo de pessoas cheias de se sentirem vazias

Porque batalhas fáceis formam só soldados fracos

Porém sofrimento demais deixa a alma em estilhaço

Eu sou quem quer ir pro céu e pra muito eu quero pouco

Pois quem nunca teve nada, metade já é o dobro!”

música do cd Poesias do Asfalto (confira)

Talvez o sonho de ir para o céu não tenha virado léu e o dinheiro por mais poderoso nunca será senhor unânime no Universo. A gente nunca sabe qual das sementes prosperará, apenas semeia com uma esperança um tanto louca, mas de alguma forma eterna.

Prodigio sua música me fez pensar… Quando Nelson Triunfo te apresenta no cd, diz: ‘Quem busca só holofotes não merece o lugar no palco’. E o que mais há nesse mundo senão seres que querem brilhar sem conhecer antes os terrores das trevas! Como é possível receber alguma honra sem ter antes experimentado duros cálices de humilhação? Quem quer ser contradição nas leis da natureza e pagar com isso com a própria alma? Um brinde sempre à disposição de sobrevivência de todas as artes, que se utilizam de seres desprovidos de quaisquer traços de soberba e que se deixam guiar pela sina de viver entre as delícias e dores.

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