Cuidados Paliativos – dignidade ao paciente no final da vida

Palliative-Care

A morte é anunciada, ainda não é fim, mas quando for a partida, poderá ser belo

A morte — a única certeza que se tem na vida. Mas quem deseja experimentá-la? Quem gostaria de passar pelo Vale da Sombra da Morte? Que alma vivente?

Cristiane Ferraz Prade é uma das fundadoras da Casa do Cuidar e atua como psicóloga. A Casa do Cuidar é uma organização social sem fins lucrativos que tem como finalidade prestar o trabalho e o ensino em Cuidados Paliativos. O atendimento a pacientes é gratuito e pode ser realizado em consultório ou em domicílio.

Cristiane explica que os cuidados paliativos podem ser instaurados a qualquer momento após o diagnóstico de uma doença grave que ameace a continuidade da vida e, que essa especialidade leva esse nome porque paliativo deriva de palium, que significa manto protetor, que era usado por cavaleiros das cruzadas para se protegerem das intempéries: “Cuidados paliativos são cuidados de proteção, que visam  o conforto do paciente e o alívio de sintomas, para melhor aproveitamento da vida, bem como também visa amparar e orientar a família”.

A especialista acrescenta que por se tratar de uma especialidade nova e ainda com alguns estigmas atrelados a ela já que é conhecida como ‘atendimento que é oferecido a pacientes que estão morrendo’, não é comum que pacientes peçam por cuidados paliativos, por isso, geralmente o médico responsável pelo caso pode indicar esse tratamento ou a família pode vir a buscar este tipo de apoio.

O medo e o sofrimento

“Quando o paciente aproxima-se da morte todos os cuidados devem ser intensificados para aliviar o sofrimento.”

Cristiane esclarece que Cicely Saunders é a pioneira dos Cuidados Paliativos e em seu trabalho enfatiza a ‘Dor Total’ — conceito de dor que abrange todos os aspectos do ser humano (físico, psíquico, familiar, social e espiritual). A psicóloga destaca que os profissionais especializados em Cuidados Paliativos devem estar atentos a todas essas dimensões:

“Quando a dor física é bem tratada, uma boa parte do medo e do sofrimento também é aliviada. O paciente pode estar na companhia da família de forma mais tranquila e compartilhar momentos especiais de troca de carinho e cuidado, compartilhando lembranças, revendo fotografias, o que ajuda o paciente a revisitar a sua própria história.”

A especialista também explica que se o paciente vive um tempo de grande sofrimento espiritual, questionando suas crenças, sua fé, o medo da pós-morte pode ser intenso e contribuir para a sensação de dor física e para o isolamento e, nestes casos, o acompanhamento psicológico e de uma figura religiosa, pode ajudar no alívio destes sentimentos e facilitar a busca por significados que possam amparar o paciente em seu luto.

Cristiane também enfatiza que em muitos casos pode haver o medo de desapontar a família, o que pode fazer com que o paciente se isole, o que torna a comunicação entre os entes queridos mais difícil: “Apoio psicológico e orientação para os familiares pode ajudar a compreender melhor a situação e buscar outras formas de aproximação”.

Para todas essas dimensões, a especialista acredita que é necessário que se possa contar com uma equipe que trabalhe de forma integrada para buscar estratégias que possam favorecer o conforto do paciente e o enfrentamento do luto antecipatório dos envolvidos: “Cuidado Paliativo é um trabalho realizado em equipe”.

O tratamento em casos terminais para o bem-estar do paciente

“Apesar da morte ser um tempo de tristeza e sofrimento ela pode reservar momentos de grande significado e de amor imenso que trazem paz e uma despedida tranquila.”

Em muitos casos, a cura não é possível e diante de uma constatação médica, pode-se afirmar que não há mais nada a ser feito?

“Diante de uma doença que a medicina não oferece hoje uma cura, ela deve oferecer alívio e garantir a dignidade do doente.”

Cristiane explica que a medicina pode oferecer tratamentos que adiem a morte como no caso de doenças crônicas e também pode oferecer tratamentos recém-desenvolvidos na expectativa de curar uma doença, mas apesar de se ter uma medicina com muitos recursos, há casos em que o paciente já esgotou todas as possibilidades de cura e resta apenas um corpo ativamente morrendo, portanto, intervenções, drásticas e fúteis, nestes casos, poderiam contribuir para mais sofrimento, tanto do paciente, quanto de seus familiares:

“Morrer não é um ato médico, é uma vivência pessoal que precisa de atenção médica. Cuidados paliativos são essenciais para que a experiência da família possa ser vivida de forma menos traumática e o paciente possa morrer sentindo-se respeitado e cuidado até o último minuto.”

O fim da vida – ensinamentos e percepções

“Um paciente jovem confrontado com a morte quando está começando sua jornada, vive reações bem diferentes das de um senhor idoso que desfrutou de sua vida e deixa bisnetos. No entanto, pode haver um mesmo sentimento de lamentação pela perda, afinal, a morte é sempre uma interrupção de uma vida.”

A psicóloga destaca que diante de um diagnóstico que ameaça a continuidade da vida, pacientes podem apresentar as mais diversas reações e percepções e que tudo dependerá da forma que essa pessoa viveu até aquele momento, de quais são os seus valores, crenças, de como viveu seus lutos passados e de quais eram os seus planos futuros que foram bruscamente interrompidos.

“Não devemos nunca presumir que sabemos o que um paciente está sentindo diante de sua própria morte, porque nós não sabemos qual é a real visão da nossa morte próxima. Sendo assim, sobretudo, devemos respeitar, amparar e cuidar do sofrimento daquele que se percebe morrendo.”

A beleza e riqueza diante da morte

“A vida ganha várias outras dimensões e cores quando diante do fim. Como um livro que vai chegando em seus últimos capítulos e vamos entendendo toda a história. Testemunhamos declarações de amor, pedidos de perdão e tantas outras cenas que nos tocam profundamente. Ser parte desses momentos junto ao paciente e seus familiares é sempre uma grande honra que nos ensina muito sobre o que de fato importa na vida.”

A especialista acredita que há muito de belo e enriquecedor na morte e que Cuidados Paliativos oferecem a possibilidade de viver aquilo que se sabe certo — a morte — com dignidade e conforto, possibilitando autonomia e escolhas fundamentais:

“De fato, a morte é uma grande professora. Ensina sobre o valor da amorosidade, da presença, ensina sobre viver a vida cultivando gratidão. Ensina sobre saudade, sobre o tempo, sobre a preciosidade de cada momento. Já ouvi de uma paciente que os anos que ela viveu com um diagnóstico de câncer foram os melhores anos de sua vida, porque ela viveu cada dia com toda a sinceridade e intensidade que tinha em seu coração.”

Qual a alegria que pode haver no momento final da vida?

“A alegria de ter vivido uma vida com sentido, a vida que se queria ter vivido.”

Verdade é que todos passaremos por esse final, por essa trilha envolta em sombras a princípio, mas que também pode reservar preciosidades, se soubermos agradecer por tudo que pudemos escrever em terra com a nossa alma vivente, que finalmente atravessará, com alguma relutância, para o lado da vida finita, mas, sobretudo, ainda vida. Jamais o amor e ensinamentos serão esquecidos.

Nossas almas não serão enterradas, apenas os corpos,

Nossas memórias não serão enterradas, estarão vivas em algum pedaço de vida.

O amor não morre.

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