A vida é um sopro, portanto…

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— Um sopro — disse Elisa à Márcia, que se recostara por um instante na janela do sombrio ambiente, nenhuma palavra saiu dos lábios da mulher, apenas um olhar cansado e um balançar de cabeça de quem concorda.

Estava tudo caminhando em uma lerdeza que parecia não ter fim. Alguns se sentiam angustiados, apressados para dali sair:

— Não suporto esses velórios, esse cheiro, essa gente sussurrando e as mesmas perguntas… — diz um dos primos de Gustavo.

— Que insensibilidade a sua!  — Fernanda diz, fulminando o marido.

— Ué, é a verdade, gostava muito de meu primo, mas por favor, dizer que esses lugares são agradáveis seria muita hipocrisia.

******

Márcia está sentada na cadeira, olhando apática a todos que se aproximam do caixão do marido. Gustavo morreu de câncer, aos 34 anos de idade, deixou um filho de 4 anos, que estava no colo de Luisa, irmã de Márcia.

Elisa era uma amiga de longa data de Márcia, se conheceram no curso de Arquitetura, acompanhou de perto o sofrimento da amiga depois do diagnóstico do marido e do aviso de que não viveria muito tempo.

******

— É no cérebro, atrás dos olhos, metástase, acabou de sair o resultado. — silêncio — do outro lado da linha está Elisa, que respira fundo.

— Quanto tempo viverá?

— Não sabemos, o médico disse que vai piorar dentro de poucos meses até o final.

— O que ele disse?

— Ainda não abriu a boca, está atônito, foi para o quarto e fechou a porta.

— Como você está?

— Não sei dizer ainda, estou com vontade de uma bebida bem forte.

— Quer sair? Com quem está o Pedro?

— Deixei com a minha mãe, amanhã cedo eu vou buscar.

— Então vamos sair, desabafa, coloca tudo para fora. — saíram — Márcia bebeu e ao invés de se lamentar, apenas ria, de lembranças avulsas, misturando casos da adolescência com histórias da faculdade.

******

Márcia resistiu exatamente dezessete vezes a todos os convites para sair de Gustavo. Quando ligou de repente no meio da tarde, perguntando se ele não queria ver um filme, ele não conseguia entender — Só pode ser maluca! — pensava, sorrindo.

Casaram-se em poucos meses, engravidou logo em seguida, Pedro nasceu, e dois anos depois, reclamações do marido frequentes de dor de cabeça. Aspirinas, métodos naturais, e de tempos em tempos, a dor voltava, até começar a se intensificar.

Em uma noite Gustavo teve um sonho. Estava em uma cabine de vidro no meio do oceano, cercado por monstros dos mares, desses que se imagina apenas na mente, e não sentia medo algum, apenas desejo de estar fora daquela redoma de vidro para sentir de perto aquele terror ou quem sabe poder. Acordou suado e ao amanhecer, não sabe sequer a razão, mas decidiu começar um curso de culinária.

******

Tinha tudo o que queria ter, tudo que o dinheiro podia comprar, era reconhecido, mas não era apaixonado, na vida era apático. Gostava da família, mas lhe faltava apreço pela vida, por ele mesmo, não por aquilo que tinha ou por pessoas que amava e que o amavam. Era um infeliz o pobre homem.

Ei! — a vida lhe gritou certa vez — em um silêncio aterrorizante. No dia seguinte, para todos ao redor, o homem enlouqueceu. Vendeu bens, montou um espaço de café, começou a cozinhar com uma urgência quase doente, ria freneticamente enquanto trocava o sal pelo açúcar, ou quando tentava flambar uma fruta e o fogo subia até o teto.

— O que acontece com você? — Márcia apesar de achar o marido louco, via com graça.

— Quero fazer o que gosto, o que realmente gosto, não quero mais viver uma vida de miséria.

— Miséria? — ri.

— Sim, tem vida mais miserável do que essa de viver sem paixão?

— E o Pedro e eu?

— Não é isso… Falo de mim, do que preciso como ser humano, não é sobre as pessoas ao meu redor, falo da paixão na minha vida, dentro da alma. A vida é um sopro. Se eu morrer amanhã, quero ter a certeza de que fiz o que queria ter feito.

********

— Sim, eu vou morrer, mas quer saber? Pensando bem, recuperei a vida nos últimos anos e está tudo certo se eu morrer agora. — a mulher está apática.

— Não vai dizer nada?

— Eu ainda não sei o que falar, ontem saí com a Elisa e acredita que tomei um porre? —  Gustavo riu.

— Comecei a lembrar de coisas da adolescência, faculdade, rir, mal pensei na doença e nesse diagnóstico.

— Você gosta de Arquitetura?

— Quê?

— Você gosta da sua profissão? É feliz fazendo o que faz? Sai de casa animada? Gosta da vida que leva, gosta da rotina de casa?

— Olha, se eu for pensar profundamente, não, não ando muito motivada com o trabalho, a vida de dona de casa é realmente entediante em muitos momentos, eu queria viajar, mas viajar por um tempo, por uns meses, sem o Pedro, queria estar sozinha, totalmente, explorando novos lugares…

— Me promete que vai fazer isso? Vai assim que eu morrer, dar um jeito de montar um roteiro de viagens desses incríveis?

— Você é um pirado!

— Sim, eu sou. E quero que vá e faça isso sem se preocupar com ninguém, com o que vão dizer, vão te chamar de mãe desnaturada…

— De viúva alegre.

— Sim, vão te julgar, criticar, mas não quero que nada disso tire de você o seu foco no objetivo. Viaja. E quer saber mais? Abra o coração. Não faça como fez comigo.

— Como assim?

— Você sabe, relutou por tantos meses, não queria de maneira nenhuma se encantar com o amor, e depois, quando finalmente resolveu sair comigo, me disse de uma experiência ruim. Eu não quero que faça isso de novo. Se seu coração vibrar, siga seu instinto, por favor! —  silêncio —  Márcia saiu do quarto e chorou.

********

Quatro meses e dois dias. Fim. —  A vida é um sopro! —  não parava de ecoar na cabeça de Márcia.

Malas espalhadas pela sala. Pedro no colo e a mãe atordoada por dentro com a decisão da filha, enquanto por fora se mostrava calma e compreensiva.

— Marcinha pirou —  disse Gertrudes à irmã.

— Largou o filho para ir viajar logo depois do marido morrer!

— Não sei o que tem cabeça, não.

********

Fim… ou talvez o começo.

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